
Testosterona para ganhar disposição e músculos: e o coração?
Mais disposição e músculos não significam mais saúde. Entenda os riscos da testosterona sem indicação e por que o coração precisa entrar nessa conversa.
Você está cansado, não consegue os resultados que gostaria na academia e começa a ouvir que a solução pode estar na testosterona. Alguém conta que passou a usar e ganhou energia, músculos e disposição. Nas redes sociais, aparecem promessas de “otimização hormonal” e rejuvenescimento.
Mas será que sentir uma melhora significa que esse uso faz bem à saúde? Usar testosterona sem indicação clínica pode trazer riscos, mesmo quando a intenção é apenas melhorar a aparência ou o desempenho. E o coração precisa entrar nessa conversa.
Cansaço significa testosterona baixa?
Não necessariamente. Falta de disposição, redução da libido e dificuldade para ganhar músculos merecem atenção, mas não confirmam, sozinhas, uma deficiência hormonal. A investigação precisa considerar a história de saúde e o contexto em que esses sintomas surgiram.
Mesmo um exame com resultado baixo não resolve a questão. O diagnóstico de hipogonadismo exige sintomas compatíveis, níveis persistentemente baixos e investigação da causa. As diretrizes recomendam confirmar a alteração com dosagens matinais, em jejum, em dias diferentes. [1]
Essa é uma condição clínica real, mas não deve virar um rótulo para justificar o uso estético. Querer um valor mais alto no exame não é o mesmo que precisar de tratamento.
Como a testosterona pode afetar o coração?
Um dos efeitos que exigem atenção é a elevação da pressão arterial. Em 2025, a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, determinou a inclusão ou ampliação desse alerta nas informações dos produtos de testosterona, após avaliar estudos específicos. [2]
Quando o assunto é uso de anabolizantes, os riscos vão além da pressão. Uma pesquisa publicada na Circulation, em 2025, acompanhou usuários por cerca de 11 anos e encontrou maior ocorrência de:
- infarto, que compromete o suprimento de sangue ao coração;
- arritmias, alterações do ritmo dos batimentos;
- cardiomiopatia e insuficiência cardíaca, que podem prejudicar a capacidade do coração de bombear sangue;
- tromboembolismo venoso, relacionado à formação de coágulos nas veias. [3]
Esse estudo foi observacional e avaliou usuários de anabolizantes. Portanto, não permite atribuir o mesmo risco a qualquer dose ou apresentação de testosterona, nem prever o que acontecerá com cada pessoa. Ainda assim, traz um alerta importante sobre as consequências cardiovasculares desse uso.
Mas não existe um estudo dizendo que testosterona é segura?
Existe uma pesquisa importante, chamada TRAVERSE, mas é preciso entender quem participou dela. Foram avaliados homens com sintomas e deficiência hormonal confirmada, que tinham doença cardiovascular ou alto risco. O tratamento estudado foi testosterona em gel.
Nesse contexto, durante o acompanhamento, não foi demonstrado aumento do desfecho principal, que reunia morte cardiovascular, infarto e AVC, em comparação com placebo. Porém, o grupo que recebeu testosterona apresentou mais casos de fibrilação atrial, embolia pulmonar e lesão renal aguda. [4]
Isso não demonstra segurança para usar testosterona sem deficiência comprovada, fazer ciclos ou buscar maior desempenho. Também não significa ausência de risco por toda a vida. Usar esse estudo para defender qualquer tipo de “otimização hormonal” vai além do que ele avaliou.
E os efeitos fora do coração?
A testosterona também pode elevar o hematócrito, que representa a proporção de glóbulos vermelhos no sangue. Esse aumento, chamado eritrocitose, pode exigir mudanças na conduta médica.
Outro ponto importante é a fertilidade: o uso pode reduzir a produção de espermatozoides. Melhora da libido não significa melhora da fertilidade. A Endocrine Society recomenda não iniciar testosterona em homens que pretendem ter filhos no curto prazo. [1]
Por isso, ganhar músculos ou sentir mais disposição não serve como prova de segurança. É possível perceber um efeito desejado e, ao mesmo tempo, estar exposto a consequências indesejadas.
Uma dose baixa e exames normais não resolvem?
Não existe uma dose que possa ser apresentada como universalmente segura para uso sem indicação. Chamar de “reposição” ou usar uma quantidade menor não responde à pergunta principal: há uma necessidade clínica que justifique esse tratamento?
Os exames ajudam a identificar alterações e orientar o acompanhamento, mas não garantem antecipar todas as complicações. Um resultado normal mostra o que foi medido naquele momento; não é um certificado de segurança futura.
Ter receita e acompanhamento é diferente de ter uma indicação bem estabelecida. O cuidado começa por avaliar se o hormônio é necessário, e não apenas por tentar controlar os efeitos de um uso desnecessário.
Já estou usando. O que devo fazer?
Procure avaliação e conte quais produtos utiliza, em que doses e há quanto tempo. Leve receitas e exames anteriores, incluindo os realizados antes de começar. Informe também outros hormônios, medicamentos e suplementos.
Não acrescente substâncias nem improvise uma “terapia pós-ciclo”. Os próximos passos, incluindo uma eventual suspensão, precisam ser individualizados. A consulta deve ser um espaço de cuidado, sem julgamento, mesmo quando o uso começou por conta própria.
Dor no peito, falta de ar súbita, desmaio ou fraqueza repentina em um lado do corpo exigem atendimento imediato. Em uma emergência, acione o SAMU pelo 192.
O que vale levar dessa conversa?
A promessa de mais energia ou de um corpo diferente não justifica usar testosterona sem indicação clínica. Antes de procurar um hormônio, é necessário entender o que está causando os sintomas e quais cuidados realmente fazem sentido para sua saúde.
Se você usa ou está pensando em usar essas substâncias, uma avaliação cardiológica pode ajudar a discutir os riscos para o coração, em conjunto com a investigação clínica e hormonal necessária.
Referências
- Endocrine Society. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism, 2018.
- FDA. Atualização dos alertas dos produtos de testosterona, 2025.
- Windfeld-Mathiasen e colaboradores. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation, 2025.
- Lincoff e colaboradores. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy. New England Journal of Medicine, 2023.

Dr. Rodrigo M. R. Sguario
CRM-SP 211.484 | RQE 124.370 | Cardiologista
Médico Cardiologista formado com especialização de excelência pelo Instituto do Coração (InCor-USP). Especialista no manejo clínico de doenças graves, Insuficiência Cardíaca Avançada e Transplante Cardíaco. Seu foco é traduzir a melhor evidência científica em cuidado humanizado.
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