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Terapia Hormonal na Menopausa e Saúde do Coração

Terapia Hormonal na Menopausa e Saúde do Coração

A menopausa muda o coração da mulher. Entenda quando a terapia hormonal ajuda, quando pode trazer riscos e por que o acompanhamento cardiológico faz diferença nessa fase.

23 de julho de 2026
6 min de leitura
Dr. Rodrigo Sguario
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Terapia Hormonal na Menopausa: Qual é o Impacto no Coração?

Ondas de calor, suores noturnos, sono ruim, ressecamento vaginal e alterações de humor afetam diretamente a qualidade de vida durante a transição para a menopausa. Mas essa fase vai muito além dos sintomas mais evidentes.

A redução do estrogênio provoca transformações importantes no organismo, incluindo no sistema cardiovascular. Com a queda desse hormônio, tornam-se mais frequentes alterações da pressão arterial, do colesterol, do metabolismo da glicose e da distribuição de gordura corporal — fatores que contribuem para o aumento progressivo do risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca.

Nesse contexto, muitas mulheres se perguntam: a terapia hormonal protege o coração ou, ao contrário, aumenta o risco cardiovascular?

O Que É a Terapia Hormonal da Menopausa?

A terapia hormonal da menopausa — também chamada de terapia de reposição hormonal (TRH) — utiliza estrogênio isolado ou associado a um progestagênio para tratar as consequências da redução natural desses hormônios.

Antes de iniciar o tratamento, é fundamental estimar o risco cardiovascular da paciente. Essa avaliação considera fatores como idade, pressão arterial, diabetes, colesterol, tabagismo, obesidade, doença cardiovascular prévia, histórico de trombose e complicações da gestação, como pré-eclâmpsia e diabetes gestacional. Essa estratificação ajuda a definir não apenas se a terapia hormonal pode ser utilizada, mas também qual formulação e via de administração são mais apropriadas para cada mulher.

O Momento de Início Faz Diferença?

Sim. Sabe-se hoje que mulheres sintomáticas que iniciam o tratamento antes dos 60 anos ou dentro dos primeiros dez anos após a menopausa costumam apresentar uma relação entre benefícios e riscos mais favorável. Esse conceito é conhecido como "janela de oportunidade".

Nessa fase, acredita-se que as artérias apresentem menor grau de aterosclerose e maior capacidade de resposta aos efeitos vasculares do estrogênio. Já em mulheres que iniciam a terapia muitos anos após a menopausa — especialmente na presença de doença cardiovascular estabelecida — essa relação tende a ser menos favorável.

Isso não significa que exista uma idade "obrigatória" para iniciar ou interromper a terapia hormonal. Cada decisão deve ser individualizada, considerando sintomas, doenças pré-existentes e risco cardiovascular global.

A Via de Administração Importa

O estrogênio administrado por via oral passa inicialmente pelo fígado antes de atingir a circulação sistêmica — o que é conhecido como primeira passagem hepática. Esse processo estimula maior produção de fatores de coagulação e modifica o metabolismo de algumas lipoproteínas, estando associado a maior risco de trombose venosa quando comparado a certas formulações transdérmicas.

Já o estrogênio administrado por adesivos ou gel é absorvido diretamente pela circulação, praticamente sem passar pelo fígado. Como consequência, exerce menor influência sobre os fatores de coagulação e sobre o metabolismo dos triglicerídeos.

Por esse motivo, mulheres com obesidade, diabetes, síndrome metabólica, hipertensão arterial, hipertrigliceridemia ou maior risco trombótico podem se beneficiar da via transdérmica, desde que não existam outras contraindicações.

A decisão, no entanto, nunca deve se basear apenas na via de administração. O tipo de hormônio, a dose utilizada, a necessidade de progestagênio associado e o perfil clínico da paciente também fazem parte dessa avaliação.

Existe Benefício Cardiovascular na Terapia Hormonal?

Quando prescrita para a paciente adequada, a terapia hormonal pode:

  • Reduzir fogachos e suores noturnos;

  • Melhorar a qualidade do sono, quando os sintomas vasomotores provocam despertares frequentes;

  • Contribuir para a prevenção da perda de massa óssea durante o período de tratamento.

O estrogênio exerce ainda diversos efeitos fisiológicos sobre o sistema cardiovascular: melhora da função endotelial, estímulo à produção de óxido nítrico (molécula responsável pela vasodilatação), preservação da elasticidade arterial e efeitos favoráveis sobre o metabolismo lipídico e da glicose.

Em mulheres adequadamente selecionadas, a terapia hormonal pode reduzir os níveis de LDL, aumentar discretamente o HDL e melhorar a sensibilidade à insulina. Alguns estudos sugerem, ainda, menor acúmulo de gordura visceral quando o tratamento é iniciado precocemente.

Apesar desses efeitos biológicos favoráveis, eles não se traduziram em redução consistente de infarto, AVC ou mortalidade cardiovascular nos grandes ensaios clínicos randomizados. Por isso, as diretrizes atuais não recomendam a terapia hormonal como estratégia de prevenção cardiovascular primária: ela melhora o ambiente metabólico e vascular da mulher, mas isso, isoladamente, não foi suficiente para reduzir eventos cardiovasculares maiores nos estudos clínicos.

Em outras palavras, a terapia hormonal pode exercer efeitos favoráveis sobre o sistema cardiovascular e alguns parâmetros metabólicos, mas seu principal objetivo continua sendo o tratamento dos sintomas da menopausa. A proteção cardiovascular depende, sobretudo, do controle dos fatores de risco tradicionais: hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e sedentarismo.

O Que Pode Dar Errado Quando a Indicação É Inadequada?

Entre os riscos que devem ser discutidos com a paciente estão trombose venosa profunda, embolia pulmonar, acidente vascular cerebral (AVC), doença da vesícula biliar e, dependendo do esquema terapêutico utilizado, alterações no risco de câncer de mama e de endométrio.

Nas mulheres que mantêm o útero, o uso de estrogênio sistêmico sem associação adequada de um progestagênio aumenta o risco de câncer de endométrio.

Qual É o Papel do Cardiologista Nesse Contexto?

Embora a indicação da terapia hormonal seja, na maioria das vezes, conduzida pelo ginecologista, a avaliação cardiovascular tem um papel cada vez mais importante no cuidado da mulher durante a menopausa.

Isso porque o aumento do risco cardiovascular nessa fase raramente está relacionado apenas à terapia hormonal. Na maioria das vezes, ele resulta da combinação entre envelhecimento, queda do estrogênio e surgimento de fatores de risco que podem permanecer silenciosos por muitos anos, como hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes, obesidade abdominal e doença aterosclerótica.

Além dos fatores de risco tradicionais, existem condições específicas da saúde da mulher hoje reconhecidas como marcadores de maior risco cardiovascular, como pré-eclâmpsia, hipertensão gestacional, diabetes gestacional e menopausa precoce.

A consulta cardiológica nessa fase não tem como único objetivo avaliar a possibilidade de terapia hormonal. Ela representa uma oportunidade para identificar fatores de risco frequentemente silenciosos, estratificar o risco cardiovascular individual e instituir medidas de prevenção capazes de reduzir o risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca nas décadas seguintes.

Mais do que avaliar a possibilidade de reposição hormonal, o cardiologista participa da construção de uma estratégia completa de prevenção cardiovascular, com foco na redução do risco de eventos cardiovasculares ao longo das próximas décadas.

Conclusão

A menopausa representa um dos momentos de maior transformação da saúde cardiovascular feminina. Embora a terapia hormonal seja uma opção eficaz para o tratamento dos sintomas quando bem indicada, sua prescrição deve sempre considerar o perfil clínico e o risco cardiovascular de cada mulher.

Mais do que discutir a reposição hormonal, a menopausa deve ser encarada como uma oportunidade para cuidar da saúde cardiovascular. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado dos fatores de risco continuam sendo as estratégias mais eficazes para reduzir a ocorrência de infarto, AVC e insuficiência cardíaca, promovendo um envelhecimento mais saudável.

O acompanhamento integrado entre ginecologista e cardiologista permite que essa decisão seja tomada de forma individualizada, equilibrando os benefícios do tratamento hormonal com a proteção da saúde cardiovascular a longo prazo.

Dr. Rodrigo Sguario

Dr. Rodrigo M. R. Sguario

CRM-SP 211.484 | RQE 124.370 | Cardiologista

Médico Cardiologista formado com especialização de excelência pelo Instituto do Coração (InCor-USP). Especialista no manejo clínico de doenças graves, Insuficiência Cardíaca Avançada e Transplante Cardíaco. Seu foco é traduzir a melhor evidência científica em cuidado humanizado.

Apresenta sintomas como palpitações, falta de ar ou pressão descontrolada?

Não deixe sua saúde cardíaca para depois. O diagnóstico precoce é o primeiro passo para um tratamento eficaz e seguro.

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