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Aspirina previne infarto? Entenda quando usar AAS

Aspirina previne infarto? Entenda quando usar AAS

O AAS pode reduzir o risco de novos eventos em pessoas com doença cardiovascular, mas não deve ser usado por todos. Entenda quando a aspirina costuma ser indicada e por que a automedicação pode causar sangramentos.

11 de outubro de 2025
6 min de leitura
Dr. Rodrigo Sguario
Check-up e Prevenção Cardiovascular
Doença Arterial Coronariana
Prevenção
Risco Cardiovascular

A aspirina pode ajudar a prevenir infarto em algumas pessoas, mas não é um medicamento preventivo para todo mundo. O ácido acetilsalicílico, conhecido como AAS, tem benefício bem estabelecido para muitos pacientes que já apresentam doença cardiovascular. Para quem nunca teve infarto, AVC ou outra manifestação de aterosclerose, entretanto, o benefício costuma ser menor e pode ser superado pelo risco de sangramento.

Por isso, começar, suspender ou tomar AAS apenas em determinados dias sem orientação não é uma forma segura de proteger o coração.

Como o AAS age no organismo?

O AAS reduz a ativação das plaquetas, células do sangue que participam da formação de coágulos. Esse efeito é chamado de ação antiplaquetária.

Quando uma placa de gordura dentro de uma artéria coronária se rompe, as plaquetas podem formar um trombo e interromper o fluxo de sangue para o coração, provocando um infarto. Em pessoas com doença aterosclerótica, diminuir essa agregação pode reduzir a ocorrência de novos eventos.

Embora seja comum dizer que a aspirina “afina o sangue”, ela não funciona da mesma maneira que anticoagulantes como varfarina, rivaroxabana, apixabana ou dabigatrana. São classes diferentes e, quando combinadas, podem aumentar ainda mais o risco de sangramento.

Prevenção primária e secundária: qual é a diferença?

  • Prevenção primária: busca evitar o primeiro infarto ou AVC em uma pessoa que ainda não apresentou doença cardiovascular aterosclerótica conhecida.
  • Prevenção secundária: busca evitar novos eventos em quem já teve infarto, AVC isquêmico, doença arterial periférica ou outra manifestação da aterosclerose.

Essa diferença é fundamental. Na prevenção secundária, o risco de um novo evento costuma ser maior e o benefício do tratamento antiplaquetário geralmente é mais evidente. Na prevenção primária, o benefício absoluto costuma ser menor, enquanto o risco de hemorragia continua existindo.

Quando o AAS costuma ser indicado?

O AAS pode fazer parte do tratamento de pessoas com:

  • infarto prévio ou síndrome coronariana aguda;
  • doença coronariana conhecida;
  • angioplastia com implante de stent;
  • cirurgia de revascularização do miocárdio;
  • AVC isquêmico ou ataque isquêmico transitório em situações selecionadas;
  • doença arterial periférica;
  • outras manifestações de doença aterosclerótica, conforme avaliação médica.

Mesmo nessas situações, a estratégia não é idêntica para todos. Presença de sangramento anterior, uso de anticoagulante, idade, função renal, tipo de evento e procedimentos realizados podem modificar a escolha do medicamento.

Quem nunca teve infarto deve tomar aspirina?

Na maioria das pessoas sem doença cardiovascular conhecida, o AAS não deve ser iniciado rotineiramente apenas para “proteger o coração”. Estudos mostraram que a pequena redução de alguns eventos cardiovasculares pode ser acompanhada por aumento de sangramentos, inclusive digestivos e, mais raramente, intracranianos.

Em situações selecionadas, o médico pode considerar AAS para prevenção primária quando o risco cardiovascular é elevado e o risco de sangramento é baixo. Essa decisão exige avaliação individualizada e não deve se basear somente em idade, colesterol, diabetes ou histórico familiar isoladamente.

Para a maior parte das pessoas, controlar pressão arterial, colesterol e diabetes, não fumar, praticar atividade física e manter acompanhamento adequado oferece uma estratégia de prevenção mais segura e abrangente. Saiba mais em check-up e prevenção cardiovascular.

AAS após angioplastia e colocação de stent

Após o implante de um stent, é comum utilizar temporariamente dois medicamentos antiplaquetários: o AAS e outro agente, como clopidogrel, prasugrel ou ticagrelor. Essa combinação é conhecida como dupla antiagregação plaquetária.

A duração não é igual para todos. Ela depende do motivo da angioplastia, do tipo de evento, do risco de nova trombose, do risco de sangramento e de outros tratamentos em uso. Algumas pessoas precisam de períodos mais longos; outras podem utilizar estratégias abreviadas.

Nunca interrompa AAS, clopidogrel, prasugrel ou ticagrelor por conta própria após um stent. A suspensão inadequada pode aumentar o risco de trombose do stent e infarto. Se houver cirurgia, procedimento odontológico ou sangramento, o médico responsável deve orientar como proceder.

Quais são os riscos da aspirina?

O principal risco é o sangramento. Entre as complicações possíveis estão:

  • gastrite, erosões e úlceras no estômago ou duodeno;
  • sangramento gastrointestinal;
  • anemia causada por perdas de sangue;
  • sangramento intracraniano, menos comum, porém potencialmente grave;
  • reações alérgicas e broncoespasmo em pessoas suscetíveis;
  • aumento do sangramento durante cirurgias ou procedimentos.

O risco tende a ser maior em pessoas com histórico de úlcera ou hemorragia, idade avançada, doença renal ou hepática, pressão muito elevada e não controlada, consumo excessivo de álcool ou uso simultâneo de medicamentos que favorecem sangramento.

Quais medicamentos exigem atenção quando usados com AAS?

É importante informar ao médico o uso de:

  • anticoagulantes, como varfarina, rivaroxabana, apixabana, edoxabana e dabigatrana;
  • outros antiplaquetários, como clopidogrel, prasugrel e ticagrelor;
  • anti-inflamatórios, como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno;
  • corticoides;
  • outros medicamentos ou suplementos capazes de aumentar o risco de sangramento.

Isso não significa que essas combinações sejam sempre proibidas. Algumas são necessárias, mas precisam de indicação clara, dose adequada e acompanhamento.

Posso tomar AAS quando sentir dor no peito?

Não use AAS por conta própria como teste ou tratamento caseiro para dor no peito. Dor torácica pode ter diversas causas, e a prioridade diante de sintomas sugestivos de infarto é acionar o serviço de emergência.

Se houver dor ou pressão intensa no peito, especialmente acompanhada de falta de ar, suor frio, náusea, desmaio ou desconforto irradiado para braço, costas ou mandíbula, procure atendimento imediatamente. Durante o contato, a equipe de emergência poderá orientar se o AAS deve ser utilizado, considerando alergias, sangramentos e outras contraindicações.

Tomar aspirina não substitui a avaliação e não deve atrasar o atendimento. Veja também os sinais de alerta da dor no peito.

Quem não deve começar AAS sem avaliação?

A avaliação é especialmente importante para pessoas com sangramento ativo, alergia ao AAS, úlcera recente, histórico de hemorragia cerebral, alterações importantes das plaquetas, doença hepática avançada ou uso de anticoagulante. Gestantes, crianças e adolescentes também não devem utilizar aspirina sem indicação específica.

Perguntas frequentes

Tomar aspirina todos os dias previne infarto?

Não para todas as pessoas. Em quem já apresenta doença cardiovascular, ela pode reduzir novos eventos. Em pessoas sem doença conhecida, o benefício pode ser pequeno e não superar o risco de sangramento.

AAS infantil é mais seguro?

O nome comercial ou a apresentação de baixa dose não torna o medicamento isento de risco. Mesmo doses pequenas podem provocar sangramento e interagir com outros tratamentos.

Quem tem pressão alta pode tomar AAS?

A hipertensão, isoladamente, não é indicação para usar AAS. Além disso, uma pressão muito elevada e não controlada pode aumentar o risco de complicações hemorrágicas. A decisão depende do histórico cardiovascular e do risco individual.

Posso suspender o AAS antes de uma cirurgia ou extração dentária?

Não suspenda por conta própria. O risco de sangramento do procedimento precisa ser comparado ao risco de interromper o tratamento, principalmente em pessoas com stent ou evento cardiovascular recente.

O AAS substitui a estatina?

Não. AAS e estatinas atuam de maneiras diferentes. A estatina reduz colesterol e risco cardiovascular; o AAS interfere na agregação das plaquetas. Quando indicados, podem ser utilizados em conjunto, mas um não substitui o outro.

Conclusão

O AAS é um medicamento importante e pode salvar vidas quando bem indicado, especialmente em pessoas com doença cardiovascular estabelecida. Isso não significa que todos devam tomar aspirina diariamente.

A decisão deve equilibrar a possibilidade de prevenir infarto ou AVC com o risco de sangramento. Se existe dúvida sobre sua indicação, uma avaliação cardiológica individualizada é a forma mais segura de definir o tratamento.

Dr. Rodrigo Sguario — Cardiologista
CRM-SP 211.484 | RQE 124.370

Dr. Rodrigo Sguario

Dr. Rodrigo M. R. Sguario

CRM-SP 211.484 | RQE 124.370 | Cardiologista

Médico Cardiologista formado com especialização de excelência pelo Instituto do Coração (InCor-USP). Especialista no manejo clínico de doenças graves, Insuficiência Cardíaca Avançada e Transplante Cardíaco. Seu foco é traduzir a melhor evidência científica em cuidado humanizado.

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